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As seis macrotendências do Festival Path 2018

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 Sugerido por Ariadine Varreira
 

Neste último fim de semana, São Paulo foi sede mais uma edição do Festival Path, o qual se distribuiu em atrações tanto no Instituto Tomie Ohtake como em outros pontos das redondezas e da cidade que também estava sendo agitada pela Virada Cultural. Sendo o Path um dos principais festivais de criatividade e inovação no Brasil, o trabalho feito pela equipe d’O Panda Criativo e da White Rabbit foi o de consolidar em seis macrotendências os principais assuntos e sinais reproduzidos ao longo do evento, os quais, por consequência, norteiam a inspiração para os próximos doze meses.

Em uma apresentação final, no domingo, as duas empresas revelaram um compilado que contou com o trabalho de mais de cinquenta pesquisadores dedicados a cobrir todos os painéis e atrações do Path. Para Vanessa Mathias e Lu Bazanella, fundadoras da White Rabbit, estas são as seis principais grandes tendências manifestadas ao longo do festival, as quais são esmiuçadas por seis especialistas convidados:

1. Purpose First

Nosso poder de estar, de fazer e de consumir no mundo faz com que nosso cartão de crédito, às vezes, se torne mais potente do que nosso próprio título de eleitor. Pensando nisso, a busca pelo propósito também aparece na forma como consumimos produtos e serviços, tornando-se, assim, uma premissa do nosso ser e estar no mundo atual.

No Path, foi a visão da cadeia de produção e da perspectiva do capitalismo consciente que se tornaram focos junto à sustentabilidade e à economia circular como uma nova forma de relacionamento de empresas e indivíduos para com o mundo e o consumo de forma mais madura. Para comentar isso, Hugo Bethlem, um dos fundadores do Instituto Capitalismo Consciente, traz a questão de que todo dia novas empresas são abertas, o que significa que, para fazer isso, é preciso ter um sentido, um propósito por detrás da empreitada. Portanto, algumas das perguntas que se deve responder no momento de se abrir uma empresa, podem ser: por que ela deveria existir? Que diferença ela faz para o mundo? E quem vai sentir falta se ela desaparecer amanhã?

Em uma pesquisa de 130 mil pessoas ao redor do mundo, porém, a resposta foi que 70% das pessoas não se importariam se essas empresas desaparecessem. Por isso, o propósito deve estar presente em toda a cadeia, da produção à venda e o consumo, o que significa que a noção de trabalho como agente de dignidade deve ser separada da ideia de emprego, uma vez que o primeiro estaria muito mais conectado à decisão de expressar a própria identidade e, portanto, em outras palavras, conectar o propósito pessoal à atuação profissional.

Mas seria possível, por exemplo, um banco ser consciente? Para Bethlem, é possível sim, especialmente se considerarmos os bancos cooperados, que não praticam as mesmas cobranças de taxas que os bancos maiores. É nesse sentido que a ideia de uma empresa ter como função gerar lucro para os acionistas funciona muito mais como um agente de cegueira diante do propósito de impacto social positivo do que qualquer outra coisa. “O quanto não é mais importante do que o como”, conclui o co-fundador do Instituto.

2. Connected Dots

Ao passo que o Festival Path tem como DNA fazer a conexão entre cultura e mercado, cada vez mais fica clara a concretização da profecia do teórico da comunicação Marshall McLuhan de que estamos nos formando em uma grande aldeia global. Isto é, com a redistribuição do poder, também as cidades passam a ser plataformas de mudança e as pessoas passam a questionar o status quo. Disso se dão as cidades cognitivas, os governos conectados, a cultura maker, o blockchain, novos padrões de distribuição e novas organizações de trabalho e hierarquias, temas que foram debatidos em diferentes painéis mapeados por Bruno Lanna, diretor da Perestroika BH.

Para ele, a grande palavra que define esse momento é “rede” e de como todos estão conectados e juntos vão encarar os erros e acertos do âmbito profissional e pessoal, assim encontrando um equilíbrio entre esses dois universos, até mesmo de maneira a repensar as hierarquias. Por outro lado, na cidade, a rede vem como uma forma de se construir municípios mais conectados e inteligentes — o que já não é uma dúvida de que vai acontecer, mas que já está acontecendo conforme a cidade, então vista como “cognitiva”, tem o sentido e o poder de dialogar com os cidadãos a partir da tecnologia, a qual precisa ser melhor trabalhada pelas pessoas para que estas façam o melhor uso.

3. Bursting Bubbles

A forma como lemos a mídia é a forma como entendemos o mundo, porém, precisamos ser maduros ao fazer essa leitura — algo que ainda não está acontecendo. Segundo a White Rabbit, precisamos aprender a ler essa nova mídia que se consolidou com a internet. A isso se englobam temas como as fake news, novos players de mídia, novas linguagens, questões de privacidade e a crescente importância da disciplina da media literacy ou alfabetização midiática, que tem como foco ensinar as pessoas a entenderem melhor o funcionamento dos meios de comunicação e, desse modo, terem uma maior compreensão e ferramentas para fazer essa leitura de forma mais madura, como se espera.

Para Leonardo Andrade, da Spark, a partir do momento em que a internet se tornou um negócio, assim como aconteceu com o petróleo, também as empresas começaram a adulterar esse setor. Isto é, a partir do momento em que a informação se tornou um ativo financeiro, ela começou também a ser burlada para poder gerar mais retorno de forma mais rápida. Também por conta da desconfiança perante os grandes veículos midiáticos, Andrade vê a tendência da descentralização como uma alternativa às intenções que, muitas vezes, permanecem obscurecidas na grande mídia. Em outras palavras, o que se busca é ouvir pessoas falando sobre o que elas pensam e não instituições.

É nesse sentido, portanto, que os influenciadores ganham foco por tomarem um papel de gatekeeper outrora era reservado à grande mídia. Mas como ressalta Andrade, da mesma maneira que a internet sofre uma adulteração, também os influenciadores vêm passando por uma crise de credibilidade por conta das empreitadas publicitárias e também de manobras como a compra de likes e de interação nas redes sociais.

Desse modo, trazendo o exemplo do profissional responsável pela configuração do wi-fi da Defcon, o maior evento de hacking do mundo, Andrade afirma que é preciso estar sempre preparado para uma possível manobra mal intencionada.

4. Humanism Renaissance

Em um momento no qual as tecnologias começam a adquirir capacidades e características sobre-humanas, é um retorno à valorização do homem que faz com que as curadoras do White Rabbit pensem em um novo tipo de Humanismo: uma retomada da essência humana para questionar se estamos fazendo o uso da tecnologia da melhor forma possível. Para comentar esse tema, Lala Trajano fala da ilusão do pensamento sobre como a tecnologia poderia nos salvar de nós mesmos, enquanto que acabamos cada vez mais perdidos.

Se, por um lado, conseguimos sorrir quando tiramos uma selfie, não sabemos nos expressar no dia a dia. Trajano questiona, então, como todas essas tecnologias criadas para melhorar nossa vida não estão mudando as crescentes estatísticas de pessoas fazendo uso de antidepressivos e o fato de que 80% das pessoas não se sentem felizes em seus trabalhos. Porém, ao pensarmos que metade dos trabalhos do futuro serão realizados por robôs e a outra metade ainda não existe, é entendendo o trabalho como expressão da identidade que podemos identificar nosso lugar nos próximos anos.

É também aí que se encontra a intersecção com a noção de propósito e de capitalismo consciente, então sendo uma forma de conciliar nossa identidade com a nossa potência em gerar transformação e expressão. Trajano lembra a palestra sobre diversidade de fontes no jornalismo e de como o coletivo Nós, mulheres da periferia descobriu-se mais potente a partir do momento em que suas histórias passaram a ser contadas também.

5. Hacking Health

Uma das grandes tendências mapeadas ao longo do festival foi uma maior preocupação com a saúde, seja ela física ou mental, de modo que se busca uma forma de se reprogramar a nossa existência seja a partir de práticas de mindfulness, plataformas tecnológicas para a saúde, alimentação, longevidade ou até mesmo psicodelia.

A geógrafa Fernanda Teruya, então, traz uma visão dos vários painéis que trataram desse assunto, a começar pelo uso da inteligência artificial na área da saúde com um case da IBM. A empresa tem usado algoritmos para ajudar, por exemplo, pacientes de diabetes a serem alertados até três horas antes de ter uma crise glicêmica. Ao mesmo tempo, Teruya também fala sobre como, no futuro, mais do que sermos doadores de órgãos, podemos beneficiar muito mais pessoas ao sermos doadores de dados da nossa saúde que gerarão insights que ajudarão mais pessoas. No entanto, para que isso aconteça, os pacientes precisam se apropriar desses dados médicos para escolher a melhor forma de contribuir.

Por outro lado, também Teruya mapeou o fato de a maconha estar “saindo do armário”, uma vez que a erva tem sido cada vez mais usada para fins terapêuticos, seja em casos de doenças ou mesmo para saúde mental, como defendido em alguns outros painéis que trouxeram o uso da maconha a partir do olhar da expansão de consciência. Nesse mesmo sentido, porém, a meditação também é uma outra linha de frente com a mesma finalidade e que não precisa estar conectada ao uso de alguma substância para se conquistar resultados como um aumento de até 40% de serotonina (também conhecida como o hormônio da felicidade) e uma redução de até 27% do cortisol, o hormônio do stress.

Por último, Teruya também comentou sobre a perspectiva atual de podermos viver até 120 anos, o que significa que ainda teremos várias vidas (ou várias etapas ao longo da vida), de modo que se inteirar mais sobre saúde e cuidar melhor do nosso corpo é essencial para que se possa viver uma velhice com saúde e não somente atingir a longevidade em más condições.

6. Omnidesign

Apesar de o termo VUCA ter sido usado em um contexto de guerra para descrever o Afeganistão como um universo volátil, incerto, complexo e ambíguo, é ele quem retorna como uma expressão que muito se encaixa ao contexto do mundo atual. E é nesse contexto que o design também ressurge em seu significado original, que é o de criar a partir de uma perspectiva do contexto real, sem ser estruturalista e que tem como foco o ser humano — tanto aquele que cria quanto aquele para qual a criação é endereçada. Por isso, o design ganha um novo olhar como uma metodologia ou uma forma de se encontrar soluções em um cenário VUCA.

Para tratar disso, Hugo Rafael da Ana Couto Consultoria comenta sobre como a publicidade e o design sempre se utilizou muitos termos esportivos ou de guerra, assim como é o caso do VUCA. Porém, isso está mudando, uma vez que se passa a pensar o design mais como um ecossistema e a partir do olhar colaborativo. É por isso que, ao longo do festival, um dos assuntos levantados foi o da importância de se colocar o ser humano no centro de todas as estratégias: isto é, não pensar o ser humano apenas como aquele a consumir ou se utilizar de um serviço, mas de que todos envolvidos nessa cadeia de produção e consumo são, afinal, humanos.

Nesse sentido, também, é papel do design encontrar soluções que forneçam acesso àqueles que não têm, bem como incluam aqueles que permanecem excluídos, de modo que essa preocupação humanista, também descrita na macrotendência do Humanism Renaissance, faça realmente sentido.

Por fim, como uma surpresa, um dos curadores do festival, o cientista de dados Ricardo Cappra, compartilhou seu olhar e o desafio de pensar o conteúdo de um festival que fala de inovação e criatividade. Em uma mesa compartilhada pela Vanessa Mathias da White Rabbit e os futurista Jacques Barcia e Demetrio Teodorov, a grande conclusão foi de que não tem como falar do futuro, uma vez que existem vários futuros possíveis.

Isto é, não existe o certo ou o errado quando tratamos de futuro e, portanto, tecnologia não deve se tornar um sinônimo de futuro ou um elemento imprescindível para a construção de futuros. É por isso que Cappra convidou várias pessoas da área de negócios e criatividade para pensar a tecnologia, uma vez que tantos produtos estão sendo desenvolvidos sem necessariamente atender ou se adequar ao contexto social principalmente porque quem está produzindo essas tecnologias não está conversando com as pessoas que lidam com criatividade e questões humanas.

Em uma era que Cappra chama de era do volume, na qual há um grande volume de dados, de pessoas, de informação e o fear of missing out (FOMO) acaba por ser um dos sintomas e das consequências, é a partir da curadoria e de uma visão mais prática, por exemplo representada nos workshops, que o Festival Path buscou trazer o olhar para a tecnologia a ser aplicada de forma criativa e inovadora ao conciliar tanto o aspecto técnico e “mão na massa” quanto o pensamento e reflexão criativos.