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Kobra: “Existem artistas excepcionais nas ruas”

 MinC
 Sugerido por Ariadine Varreira
 

Famoso pelos seus enormes murais coloridos, Eduardo Kobra saiu da periferia paulistana para ganhar o mundo. O gosto pelo desenho desde criança o levou a grafitar os muros de São Paulo e a se tornar, mais tarde, um dos maiores muralistas do País. A arte trouxe oportunidades, fama e “uma vida diferente da que esperava ter”, como ele diz.

Em entrevista para o nosso portal, Kobra fala sobre a riqueza da criatividade dos artistas daqui e sobre a importância do Brasil, que para ele está na vanguarda nesse movimento de arte de rua. Também defende um maior investimento na economia criativa. O artista de rua ainda lamenta o preconceito que não cessa com relação ao grafite e antecipa novos projetos.

Como o grafite entrou na sua vida?
Na realidade, foi de uma forma muito natural e espontânea, porque sempre desenhei, desde 8, 9 anos de idade já desenhava. Com 12, 13 anos, vi que era possível desenhar nos muros. Descobri isso por meio de livros e filmes dos grafiteiros de Nova York. Achei que seria capaz de fazer aquele tipo de trabalho e comecei a grafitar nos muros de São Paulo.

O grafite mudou sua vida? Como?
Nasci na periferia de São Paulo, em um bairro simples (o Grajaú, na Zona Sul da cidade). Por meio da arte, pude ter uma experiência diferente dos meus amigos. Me afastei do mundo do crime, das drogas. A arte me proporcionou a oportunidade de viajar para cinco continentes, pintando para mais de 40 países. Superou toda a expectativa do que eu poderia ser ou fazer. Tive uma vida totalmente diferente da que imaginei.

Teve algum país que te marcou mais? Alguma obra de arte feita em algum país é a sua predileta?
Fui para lugares incríveis como a Índia, pude pintar lá. Fui para o Japão, aonde deixei três obras. Fui para os Emirados Árabes quatro vezes. Nos Estados Unidos é aonde mais atuo. Fui ao México e vi murais de Diego Rivera e, na Inglaterra, fiz turnê pelas obras de Banksy. Mas gosto sempre de manter as origens. Procuro fazer obras sociais e deixar meu trabalho em lugares mais humildes. Todos me trazem experiência e agregam valor ao meu trabalho.

Acha que ainda existe muito preconceito com a arte de grafitar?
Existe preconceito, falta de respeito e falta de conhecimento de pessoas que não entendem que os meninos que fazem desenhos são artistas e que eles querem expor seu trabalho. Em vez de repreender esses grafiteiros, é preciso incentivá-los, dando espaço e dando materiais e oficinas de arte. Qualquer preconceito é pura falta de conhecimento. Existem artistas excepcionais nas ruas, assim como tem também nos museus.

Que conselhos daria para quem está começando?
Ser artista é igual a qualquer profissão. O artista tem de se dedicar, pesquisar, evoluir e, só assim, perseverar. Se deu certo pra mim, dá certo para outros também.

Uma de suas obras mais famosas, e amplamente divulgada durante as Olimpíadas do Rio, é Etnias. Que desafios enfrentou para concluir esse mural?
Primeiro foi que aceitassem o tema proposto, que é uma homenagem aos indígenas. O mural representa os cinco continentes, aquelas figuras são povos indígenas dos cinco continentes. É um mural de 3 mil metros quadrados, entrou para o Guinness Book. Teve toda a questão logística, com máquinas e o uso de plataformas elevatórias. Também teve a dificuldade de preparar a parede, porque era uma parede danificada, um lugar semiabandonado, e o fato de trabalhar debaixo de sol.

Qual é a importância da economia criativa para o desenvolvimento econômico e social do País? Concorda que a cultura gera futuro, emprego e renda?
Este ano, em Austin, nos Estados Unidos, estava pintando num local privilegiado e muitas pessoas interagiam. Era um trabalho mostrando a cultura brasileira, o painel retratava os povos que moram no Brasil. Isso leva o nome do Brasil para conhecimento de outras pessoas, que desconhecem esse lado criativo dos brasileiros. A parte mais rica e nobre é a parte da criatividade. Tanto na música como na arte, o brasileiro se destaca. Hoje, o Brasil está na vanguarda nesse movimento de arte de rua. Tem que ter mais pessoas investindo na economia criativa, mapeando esses artistas.

Quais são seus próximos projetos?
Estou com um projeto em Nova York. Vou pintar cerca de 28 muros e criar uma turnê com meus trabalhos. Será como uma exposição: vou convidar as pessoas para interagir e visitar esses painéis. Deve ser no segundo semestre, se tudo der certo. Escolhi essa cidade porque comecei a pintar sob influência dos artistas de lá.